Prometido e não cumprido. Meu passado e meu futuro. Tudo vira bosta. Um dia depois, não me vire as costas. Salvemos nós dois: tudo vira bosta. (Rita Lee)
sábado, 9 de julho de 2011
Uma porta aberta
Então fico aqui, me sentindo talvez um pouco idiota. Deixei a gaiola aberta e o passarinho saiu, mesmo com a asa quebrada. De quem é a culpa? De quem é a falta? É tolice deliberar sobre a porta, agora.
Uma porta fechada
É triste a tardia percepção de uma ausência. Sempre acreditei numa distância ideal às coisas, onde houvesse equilíbrio entre o excedente e o falho. Porém, sem saber, a distância suficiente para que os ecos encobrissem esse silêncio. Uma porta fechada, um lugar vazio, uma tela em branco, um espaço indiferente. É estranho a perda inesperada do que não se dava conta, ou a falta inexorável do volátil. Quanto tempo dura o luto por alguém que vive?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Laços e nós
Quem se recusa a fazer laços acaba, o quê, tendo de enfrentar os nós.
(Campanha Ariel - Lavando Roupa Suja)
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Do fio da meada
Às vezes parece
a cabeça passa o dia a tricotar
são nós que o seu corpo
precisa desamarrar
quarta-feira, 23 de junho de 2010
segunda-feira, 12 de abril de 2010
ANATOMIA
É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
A alma, não.
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar a vida, estranhos escravos.
Mas e a alma?
É triste ve-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lágrimas,
para a inquieta brisa de voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
E a alma?
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos a alma.
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
A alma, não.
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar a vida, estranhos escravos.
Mas e a alma?
É triste ve-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lágrimas,
para a inquieta brisa de voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
E a alma?
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos a alma.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Sobre os múltiplos de dois
Vai ver é isso:
existem pessoas
pares
e ímpares.
Os ímpares são pra ficar aos pares.
E os pares são pra ficarem ímpares.
Soneto da boa intenção
Tomo um papel na solidão
Nas horas neutras em plantão
Rimo e tento até que enfim
Consigo este pouco de mim
Em ritmo de respiração
Mas descubro: apenas são
Sílabas inúteis pelas linhas
Pois já longe tu caminhas...
Agora leve o vento então
O que ficou já não se alinha
Sem ritmo, sem respiração
Apenas eu nas entrelinhas
Ficou só na minha canção
Aquela surpresa que eu tinha
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Sobre as estrelas
Ah, se eu só quisesse as estrelas, era muito mais fácil. As estrelas existem e, por queimar, se fazem em luz. E, sendo luz, se dão. Se entregam pelo próprio brilho. Estão longe, mas os raios de luz, um atrás do outro, em fila, entregam os sóis aos meus olhos. As estrelas são só um e-mail cintilante que demora para transferir pelo céu. Não que o céu seja lento, claro - elas é que são grandes demais.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Sobre as relações
Estou cansado de tangenciar as pessoas, não importa quanta fricção se faça: pode aquecer o corpo, mas não se chega no ponto.
Quero criar vínculos. Não, não como correntes que atam os braços; mas largando âncoras profundas.
domingo, 22 de novembro de 2009
Pontuação
Bom, preciso confessar que eu nunca consegui acabar nada com ninguém. Sinto que nada nunca ficou pronto.
sábado, 21 de novembro de 2009
Mal entendido
Você não ouviu o que eu queria dizer. Não, não, aquilo era apenas palavras. As palavras são só a roupa da idéia, e a minha idéia era que... Bom. Deixa pra lá. Os pensamentos bem são como estrelas cadentes e, nesse instante, aquele já se foi pelo horizonte, como um dia que se perde no oeste. O crítico é que, ao ouvir as minhas palavras e assentir, o presente continuou embrulhado pelas palavras intactas. Você não ouviu o que eu queria dizer; e a nossa sorte mofou dentro das sílabas que você não soube despir.
sábado, 14 de novembro de 2009
Explicação sobre o espaço entre um segundo e outro:
O que não foi, simplesmente não foi.
E ninguém ficou sabendo.
Lindo:
carta nº 9: dos primeiros dias
Ontem os seus olhos doeram em mim. E como pode um olhar doer em alguém uma dor tão limpa, rabiscar de azul o silêncio que estendi pelos cantos no chão? Tive tanto medo de encontrá-los, tive medo de levantar os cílios e eles se deitarem feito um pássaro em tuas mãos tão claras, e descobrires o que eu já não posso evitar. Tive medo de notares o quanto eram indefesos diante dos teus... Por isso, tratei de escondê-los por trás do quadro, dos ferros na janela, da cortina, do tapete, das pétalas, colocando-se diante de minhas pálpebras, enquanto eu falava qualquer coisa para me esconder por trás das palavras.
Mas foi quando eu ainda nem havia dito nada, foi quando eu ainda nem te conhecia, foi na fresta que, por descuido, esqueci aberta... que teus olhos doeram em mim, caíram em mim e me mancharam de tinta. Não sei o que era ali dentro deles, se a minha tristeza ou a tua, mas nunca vi olhos tão claros, nem outros que ofuscassem tanto a minha vida.
Agora eu viro para o lado e não quero mais que o outro me siga, não quero mais que o outro me toque porque tocar as minhas costas é empurrar a manhã para o meio das nuvens, entende? Uma manhã que era toda feita para colher as maçãs, as maçãs que eu enrolaria doces numa forma para te dar. Por isso, quando ele me tocou, duas lágrimas eu aninhei no travesseiro, e escorri com elas, e dentro delas esperei que ele tocasse o meu corpo. Só voltei quando ele acabou.
Mas foi quando eu ainda nem havia dito nada, foi quando eu ainda nem te conhecia, foi na fresta que, por descuido, esqueci aberta... que teus olhos doeram em mim, caíram em mim e me mancharam de tinta. Não sei o que era ali dentro deles, se a minha tristeza ou a tua, mas nunca vi olhos tão claros, nem outros que ofuscassem tanto a minha vida.
Agora eu viro para o lado e não quero mais que o outro me siga, não quero mais que o outro me toque porque tocar as minhas costas é empurrar a manhã para o meio das nuvens, entende? Uma manhã que era toda feita para colher as maçãs, as maçãs que eu enrolaria doces numa forma para te dar. Por isso, quando ele me tocou, duas lágrimas eu aninhei no travesseiro, e escorri com elas, e dentro delas esperei que ele tocasse o meu corpo. Só voltei quando ele acabou.
(por Rita Apoena)
sábado, 7 de novembro de 2009
Técnica
1. ajeite-se na cadeira
2. inspire puxando o diafragma para baixo e a barriga para frente em 3 segundos
3. mantenha 3 segundos
4. expire em 3 segundos
5. inspire levantando os braços e puxando-os para o alto
6. expire abaixando-os e empurrando para baixo
7. boceje
8. sorria
Pronto! Não é bom assim?
Acho que eu só queria um amigo
Mas um amigo não tem braços, nem pernas. Um amigo que não tivesse rosto, boca, pescoço, cabelo... Uma amizade que não tivesse tesão ou mimo. Nem voz. Nem nada. Que fosse só uma amizade mesmo, um amigo: duplo e recíproco entendimento. E para conseguir isso eu apanhei seus braços e suas pernas; mordi sua boca, suguei sua voz, seu pescoço; sumi com seu rosto e o seu cabelo se espalhou. Gastei todo o mimo, e gozei até não haver mais tesão naquele quarto. Estava pronto: um amigo para a noite inteira.
sábado, 26 de setembro de 2009
domingo, 5 de julho de 2009
Da cumplicidade
Às vezes eu penso que as pessoas são de açúcar, e que gastam... Ou que, depois de um tempo, a gente não sente mais o gosto. Eu quero tirar a prova com você. Se é assim que funciona. Só temo que, depois de tanto tempo abraçados, nunca mais consigam nos separar.
(julho 2006)
(julho 2006)
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