Prometido e não cumprido. Meu passado e meu futuro. Tudo vira bosta. Um dia depois, não me vire as costas. Salvemos nós dois: tudo vira bosta. (Rita Lee)

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Choque

Durante uma surpresa desagradável, todas as borboletas no estômago resolvem abrir as asas no mesmo instante. E só melhora depois de, uma por uma, saírem voando garganta afora.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Encargo reparatório sobre o excesso de velocidade

Eu não sei onde você está
mas quero que carregue as
palavras que eu deixei
atrasar

Não são desculpas, confortos
despedidas. Apenas palavras
comedidas



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Descontentamento

Dizem que as duas únicas felicidades do pobre são tirar o sapato apertado no fim do dia e esvaziar a bexiga depois de tempo sem fazê-lo. Pode ser que ter dinheiro seja diferente, mas... Quem não sabe o que é ruim, tampouco reconhece o bom.

sábado, 9 de julho de 2011

Uma porta fechada

É triste a tardia percepção de uma ausência. Sempre acreditei numa distância ideal às coisas, onde houvesse equilíbrio entre o excedente e o falho. Porém, sem saber, a distância suficiente para que os ecos encobrissem esse silêncio. Uma porta fechada, um lugar vazio, uma tela em branco, um espaço indiferente. É estranho a perda inesperada do que não se dava conta, ou a falta inexorável do volátil. Quanto tempo dura o luto por alguém que vive?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Soneto da boa intenção

Tomo um papel na solidão
Nas horas neutras em plantão
Rimo e tento até que enfim
Consigo este pouco de mim

Em ritmo de respiração
Mas descubro: apenas são
Sílabas inúteis pelas linhas
Pois já longe tu caminhas...

Agora leve o vento então
O que ficou já não se alinha
Sem ritmo, sem respiração

Apenas eu nas entrelinhas
Ficou só na minha canção
Aquela surpresa que eu tinha

sábado, 26 de setembro de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Com franqueza

A voz dela entoou fraqueza para eu ouvir. Com ingenuidade, o seu choro implícito anasalou a palavra para mim: franqueza. Eu desconcertei, me vendo ali em fraqueza. A ingenuidade anasalando a palavra e despindo em mim a verdade que era minha, também.

Ele inventou um final feliz para não me ver chorar. Mas eu chorei mesmo assim, com o desfecho inesperado: a verdade escorrendo no rosto e me anasalando a voz.

Eu fitei nos olhos tentando puxar a paixão. A paixão que é necessidade, a necessidade que todos temos de fugir do amor: que é completo e encara a verdade úmida da vida.

Eu tinha medo de perder. Eu queria manter. Eu queria continuar seco, mas o tempo faz chover nos olhos e enxágua as lembranças de vez.

Ela me disse francamente que tinha medo de morrer. Eu senti fraco: seco e sem voz. Eu também tinha medo que ela morresse.

A vida muda de tom inesperadamente. A nossa mentira é um nexo frágil, a franqueza é inexorável.Nós somos fracos. Apenas alguns são francos. Talvez seja isso: quando você diz a sua fraqueza tão ingenuamente eu enxergo em mim aquilo que eu nunca pude ver - a minha também.

Dói em mim, doeu em você; mas aceitar e ser verdadeiro é inevitável. Será que o medo daquilo que não dá prazer deu mais desprazer do que aceitar o problema?

sábado, 13 de junho de 2009

Formatos

Se depois eu não te vi mais, meu querido
Não, não foi porque eu não quissesse;
Foi porque a poesia, embora pudesse
Ser uma novela, não o houvera sido.

Dor epicrítica

Será que o amor é assim? Será que o amor dói? Eu não sei. Mas entender aquela dor a deixou muito menos desagradável. Quando eu era menino, eu sempre olhava o bisel da agulha perfurando a pele, e o sangue espumando dentro da seringa.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sobre o outro

Quem é que habita o outro,

No mármore do corpo?

Esse meu desejo louco

No outro, eu, absorto.



É estranho ter assim:

Sendo menos; querendo

mais sabor e, sim,

de mais sabor se enchendo.



É prazer fugaz

É obra do destino?

O que é que jaz

Ao fim desse caminho?



Será que é tesão

Será que é desatino

Ou essa atenção

É obra do destino?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

E a morte vem

Ontem
uma paciente me
contou que tinha medo
de morrer, e eu
só pude dar um
consolo vazio.
No fundo, eu
acho que eu
também
tinha medo que ela morresse.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ode to Divorce - Regina Spektor

The food that I'm eating
Is suddenly tasteless
I know I'm alone now
I know what it tastes like

So break me to small parts
Let go in small doses
But spare some for spare parts
There might be some good ones

Like you might make a dollar
I'm inside your mouth now
Behind your tonsils
Peeking over your molars
You're talking to her now

And you've eaten something minty
And you're making that face that I like
And you're going in, in for the kill, kill
For the killer kiss, kiss for the kiss, kiss

I need your money, it'll help me
I need your car and I need your love [x2]
So won't you help a brother out?
Won't you help a brother out?
Won't you help a brother out, out, out, out, out?

So break me to small parts
Let go in small doses
But spare some for spare parts
You might make a dollar
Dollar, might make a dollar

So won't you help a brother out?
Won't you help a brother out?
Won't you help a brother out, out, out, out, out?

So break me to small parts
Let go in small doses
But spare some for spare parts
There might be some good ones

You might make a dollar
(There might be some good ones)
There might be some good ones
(You might make a dollar)
You might make a dollar
(There might be some good ones)
There might be some good ones

domingo, 27 de julho de 2008

Da ressaca

A solidão tardia não é uma música, que estupra o espaço de supetão. Essa ausência é uma morte, que agoniza, antes mesmo, por seu risco potencial. E que mata, na hora certa, aos poucos. É um silêncio que se faz presente devagar, instante a instante, na ausência de vida... Mais abissal.

É um silêncio que ensurdece só quem já teve ouvidos. É mais profundo pelo eco. E vai deixando letargia passo a passo, como apaga uma vela... Aos poucos, em etapas e brasas profundas, em fumaças tênues, mudas, sorrateiras, infiéis.

Quando foi que essa calma chegou? Quando foi que o mar parou, na derradeira ressaca? Por que, com os olhos ofuscados, a noite chegou, assim, tão de repente? Sem noção, sem discernimento... E os pássaros todos dormiram?

O escuro é pior que a visão do estranho. É pior quando o tremor vem sem estímulo, por dentro. Ansiedade muda. E brota, na noite, no silêncio, imenso, surdo e ensurdecedor.

terça-feira, 1 de julho de 2008

De um amor maior

E se o amor, um dia, implicasse em se desproteger?
Em assumir riscos terríveis?
E se um amor, um dia, exigisse a extinção do medo,
e da proteção?
E se um amor, que não pedisse nem amor...
Precisasse, para ser, que o ser que ama, não fosse o ser que é?



O que seria desse amor?
Quem haveria de amá-lo tanto,
já que não o pede,
para sê-lo?
Quem haveria de amá-lo,
já que não o pede para sê-lo?

domingo, 22 de junho de 2008

Reflexos

Hoje é um daqueles dias bonitos. Tem os dias de vento norte, dizendo "saiam de casa, antes que chova: aproveitem esse sopro quente que eu posso dar"; tem os dias frios e ensolarados, para passeios no sol; tem os dias de verão, para tomar sorvete; os de primavera, para fazer pique-nique; os de outono, para passear pisando nas folhas laranjas, e olhos últimos acenos das árvores, amarelos, contrastando no sol.

Hoje é um outro dia, hoje o céu resolveu brincar de molhar e esperar secar. E o dia amanheceu em todos os lados, por todos os pontos cardeais, de cima pra baixo, de baixo pra cima - refletido na água que a noite deixou, por acaso. Manhã cristalina. Manhã ofuscada. O céu é todo uma mancha, são manchas. O céu é uma poça clara e escura, como se a luz se tivesse derramado em meio à noite. E ninguém sabe onde o sol está, na imensidão clara. Como ninguém sabe onde as estrelas ficam, quando o dia amanhece.

Hoje é o dia mais frio do ano. Não porque não haja sol, para queimar nada e aquecer as horas; não porque a noite fria se fizesse presente, encharcando horizontais; é porque hoje a luz não pára em coisa nenhuma. Nem na nuvem escura o sol parasse: queimou o céu livre inteiro para se derramar; se o ar não é azul: é límpido - e a água não deixa o sol ficar.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Inverno

Faço longas cartas pra ninguém
e o inverno (no Leblon) é quase glacial.
Algo que jamais se esclareceu:
onde foi, exatamente,
que larguei naquele dia, mesmo,
o leão que sempre cavalguei.

Lá mesmo esqueci que o destino
sempre me quis só
no deserto, sem saudades, sem remorços
só, sem amarras, barco embriagado ao mar.

(Adriana Calcanhoto - Inverno)

Pronto, chorei minhas lágrimas de Staphylococcus multirresistente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Patinetes

Patinetes

Uma vez, eu lembro, voltaram à moda. Eu estava numa daquelas fases pós-consumismo, em que você encara cada objeto como um aglomerado de moléculas moldado por mãos inescrupulosas. Um monte de átomos que não é diferente de qualquer outro monte de átomos, mas que está ali: especialmente moldado para você, e para lhe custar o dinheiro do mês.

Assim foi com os chocolates. Passaram de vício irracional a lixo racional em um piscar de olhos. Na verdade, acho que não tem jeito melhor de transformar algo em lixo e justificar aversão do que racionalizando. De fato, aqueles brinquedos nem eram ruins. Eu podia ter me divertido com eles.

Dói um pouco pensar que eu achava que eles eram ruins só porque não podia comprá-los. Não porque de fato não pudesse, nem, mais logicamente, porque fossem supérfluos (i.e. pertencentes a um conjunto de coisas que não está no seu padrão). É, padrão, sim. Seria como ter 20 reais. Você pode comprar um shampoo sem sal e desfrizzante... Mas, e o condicionador? Faz sentido ter um só? Mas, repito, dói não porque não era parte do meu padrão da época, ou por qualquer outra razão materialista. Machuca-me porque a razão é assim tão podre, tão parcial e ligada às emoções mais mesquinhas. É triste saber pensar e descobrir que não serve para nada.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007